—A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.
Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das letras, e continuou depois d'este theor:
—Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?
—De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!—respondi—Quem é que o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.
—Não tanto—replicou sem embiocar a caridade—Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
—Deve dizer—respondi commovido—que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
—A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão pêcas glorias da especie humana.
A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.
Jantamos.
Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Alvaro.