—E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...

—E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...

—Pouco aprendeu...—replicou o padre—Eu queria mais que tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, o post tenebras spero lucem de Job.[1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.

—Vou hoje de tarde a Lisboa—me disse elle, placido e triste—Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Martha.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos na grade.

Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos.»