Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á semelhança das que regelam na face d'um cadaver.
E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!
Parou a sege.
Saltei para amparar o padre na descida.
—Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui fallar-me.
Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:
—Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.
Voltou-se para mim, e disse-me:
—Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o poder fazer sem custo.
—Pois não me quer comsigo agora?!—atalhei.