Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:

—Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella respondeu-me:

—O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!...—E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher através dos ultimos vinte annos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força passal-o á cama: não o conseguimos.

—A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. Dulcis est somnus soperanti[6]—disse elle.

E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:

—O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.