Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:
—O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula...
—Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Alvaro—disse-lhe eu.
—E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a luz, que illumina e abraza... Ardere et lucere...[2] Padeci muito, e esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa vida aqui se acabam: Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo dia: Ridebit in die novissimo[4].
Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.
Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.
—Medicos!...—murmurou elle—O caixão... Mortalha cá está esta...
Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os olhos no céo:
—D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericordia Divina.
Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janella.