A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e cinco anteriores áquella data.
Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua innocencia, diante de Deus.
Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, obteve licença de estar no collegio um mez.
D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:
—Vou ver minha mãe, Eufemia.
—Que diz, menino!? Está doudo!?
—Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, porque pensa que estou no collegio.
Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, sendo a mais forte de todas esta:
—E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. Quem lhe dá o dinheiro?
—Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o não emprestar, vou a pedir esmola.