—E depois?
—Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um convento...
—Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe pergunto: o que eu quero é saber porque foi.
—Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.
—Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu, Eufemia?
—Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe diga o resto...
Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o patrão para casa.
Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do gabinete.
Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.
Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.