—Oh meu Deus, meu Deus!—clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o oratorio de Cecilia—Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!
Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.
Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores annos de sua vida.
Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a imaginação apaixonada do poeta os achou assim.
Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.
O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das flagellações de onze annos de saudade.
Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.
Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre juvenil poeta!
E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir delicado o tiraria a limpo.
Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.