Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cançadas.
Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem alli vinha ter por seu pé.
A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos ás cellas das suas doentes.
O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.
As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da loucura.
—É o meu filho!—exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam—É o meu filho! é a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...
E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.
Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o viço dos vinte annos.
—Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?—disse ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.
—Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá—disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.