—Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!

Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e gotejante de suor.

A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa transpiração.

A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.

—Sinto-me vigorosa...—disse Maria—Olha, meu filho, entra n'aquella cella, e espera-me lá.

Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.

Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe temperassem as desesperadas saudades.

Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro estava.

Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que parecia tomado de melancolico espasmo.

—Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te entristece?