—Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?

Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:

—Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para comprehenderes a calumnia de que sou victima.

—Mas—atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida—o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe... Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.

—Cala-te, cala-te, meu filho—exclamou Maria, afogada em soluços.

—Não chore assim, minha mãe—acudiu o menino, a chorar com ella—Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro annos?

—Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?

—Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de 1820. A mãe não escreveu mais algumas?

—Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.

—Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa...