—Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?—tornou debulhada em pranto a mãe de Alvaro.
—Mulher de pouca fé...—murmurou a santa, com brando sorriso, e um meneio triste de cabeça—O menino—ajuntou voltando-se para elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas—sahe de madrugada, sim?
—Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.
—Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.
E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de Nazareth o annuncio da sua maternidade!
Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com que o velara no seu primeiro anno.
Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia acordar o filho.
—Acordal-o para o vêr ir de mim!...—dizia ella, chorosa.
Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa deram-lhe alma para o trance.
Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.