Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:

—O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora em que Deus o mandou chegar.

Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de noviciado, e contavam para mais de setenta annos.

Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella fez signal de ficarem.

—Que pena tenho eu—disse a freira com muito alegre semblante—de não ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!

As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha senhora—disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.

—Ora, deixe estar—tornou a religiosa—hei-de ver se o não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não deve demorar-se muito...

—Eu desejava estar mais tempo—disse Alvaro—mas não tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.

—Ámanhã!—exclamou Maria—pois já me deixas ámanhã!?

—E deve ir ámanhã—respondeu soror Joanna com impressiva firmeza, como se désse ordens.