Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.
Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.
Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.
Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se chama Alfredo, Ernesto, Arthur, ou Julio. Acceite-o assim, que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem honradamente servira.
João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto—á virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.
João de Mattos amou Maria da Gloria.
Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.
Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.
Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus azares: não empreguei outra magia...»
N'outro relanço diz: