—Pois eu descórei?!—balbuciou ella—Impressionou-me a mudança do teu rosto.
Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.
Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.
—Por que me fazes semelhante pergunta?!—disse-lhe ella, resolvida a contar-lhe o acontecimento.
O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.
—Deus sabe a minha innocencia: nada temo—disse ella.
É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem citados ao seu tribunal supremo, e—n'isto vai muito a dizer—parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.
Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!
Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não digamos maldade.
Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.