—Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!
Não respondeu, e sahiu.
A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e não de immoralidade.»
Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, e dissera comsigo:—«Isto entretem.»
Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este mundo?
O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.
Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, com rosto sêcco e pesado:
—Por que despediste o criado Gregorio?
—Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.
—Porque descóras?