De muito dizer-se ao theorico:—sê pratico!—faz-se d'elle ás vezes um ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas variadissimas.
De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;—um grande poeta e um grande romancista... contrafeitos; e com elles—o satanismo e o naturalismo; porém—naturalismo—de meza de autopsia ou de laboratorio chimico.
—«Faz-me tristeza pensar,—escreveu Camillo n'um dos prefacios do seu Amor de perdição,—faz-me tristeza pensar eu que floreei n'esta futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de Quintiliano á do Collette-encarnado. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo, inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»—
Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de Maudsley.
Não se modificou—transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.
Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na Phedra pôz Platão na bôcca de Socrates:—«Os maiores bens são produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»—O—Est Deus in nobis,—que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. João—«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para que o escutaes?»
Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos, aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os povos como as nevoas densas da palude.
Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas, toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.
Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos arvoredos.—A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo, patrimonio de todos.
N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:—«De mim digo que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos. Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido heroes. Além d'isso apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que passam. Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a singularidade de nos não lastimarmos.»—