Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, que nunca lhes quiz mal.

Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as flôres do mal; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha a ingenuidade de julgar sagrados.

Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os espiritos fortes sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.

Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.

Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.

Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre Alvaro Teixeira:—«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»

—Deus—era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo a mais constrictora ancia da sua alma.

Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça paternal,—a da caridade?—«A solidão sem Deus não serve para infelizes maus»—nos diz elle no seu livro de consolações—O romance d'um homem rico—onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da resignação:

—«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado... Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e encontram os de Deus.»

E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes: