—«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»—

E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da arte:—«Rien n'est beau que le vrai».—Por isso elle nos diz:—... «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade.»—

Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a indole do artista que o reproduz.

O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta, existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo existe na natureza.

Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.

Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar revelações e inspirações por todos esses theatros em que a humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não é educadora, não é nada e para nada serve.

Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros princípios e outras aspirações.

E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes impuridades espremem dos bicos das suas pennas!

Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas, com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da sepultura!—chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal insomnia,—signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes, achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.

Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando Camillo escreve a Corja ou o Euzebio Macario e Zola escreve o Sonho. Passos dados para a concordia senão para a unificação das escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo futuro.