Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.

O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.

Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção de evangelhos.

No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta nos arrabaldes de Napoles.

Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.

E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola, porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos de todos os seus amigos.

Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.

N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.

IV

Dico vobis: Omnia quœcumque orantes
petitis, credite quia accipietis, et
evenient vobis.