Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:
—Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?
—Nem eu sei dizer... Não é medo...
Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:
—Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.
—E vem a minha casa?!—disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dous.
—Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á sua justa vingança...
—E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?—interrompeu o commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
—Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe sósinhos por alguns segundos.