—É o facto importante da nossa pratica—respondeu João de Mattos, e accrescentou com tristeza:—é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o preso.
Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:
—Entrem... Conhece este homem?—disse elle ao negociante, indigitando o preso.
—Tenho idéas...—respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.
—Diz a este senhor quem és—tornou o intendente com terrivel sombra ao preso.
—Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos em casa de vossa senhoria.
Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.
—Mande erguer esse homem—disse o intendente.—O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa d'este senhor?
Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico accento:
—Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. Maria da Gloria?