O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:
—Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!
João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.
João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:
—Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não vale onze annos de lagrimas.
O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.
Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:
—Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.
Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.
João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso: