«Meu sobrinho.

«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.

Joanna das Cinco Chagas do Senhor.»

—Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?—disse João de Mattos.

O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:

—Eu vou levar a resposta a sua tia.

O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.

E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.

Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso semblante do intendente.

Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:

—Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções más.»

Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia expansiva de amigo.