—Conheço—disse Maria com a voz extenuada,—conheço as minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao seu proprio assombro.
—Senhora D. Maria—disse a abbadessa—á portaria está seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?
—Póde, pois não póde?!—disse soror Joanna das Cinco Chagas—Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se Gloria!
No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes correlativas.
Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da curiosidade.
Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse intervallo pelo doutor Ferro:
Vão freiras, vá noviça, e vá a moça
Gosar d'um coração que desabafa;
Mas deixem na janella quem nos ouça;
Seja um vulto qualquer... uma garrafa!
VII
Na oração que ha senão aquella
duplicada força, capaz de amparar-nos
na queda, ou solicitar-nos o perdão,
se nos despenhamos?