SCHAKSPEARE (Hamlet).

Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria devia fazer-lhe.

Dizia Sebastião de Brito:

—Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.

A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.

Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas, noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com affectuoso sorriso:

—Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada nem mesmo aos maridos penitentes.

Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que dobrara o joelho diante d'ella.

—És tu?—disse ella—E podeste conhecer-me?

—Quando te não conheceria eu, infeliz?—respondeu elle afogado de lagrimas e gemidos.