Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam expirado nos meus braços.»

Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse desculpas que dispensassem a filha.

Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:

—Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?

Alvaro corou, e balbuciou.

Maria proseguiu:

—Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.

—Por que, minha mãe?!

—Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a prophecia, que te faço hoje.

Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais: