«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»
No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
—Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!—disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria—A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?
—Perfeitamente... Está nos Olivaes?!
—O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.
—Isso que admira?!—acudiu com azedume Leonor—O pae não ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que mais notavel vejo no poeta é o seu talento!
—E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!—disse Maria da Gloria.
—A pequena é maniaca por versos—replicou o pae—E o mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?
—Meu primo não gosta de versos...—respondeu ella com fastio.
—Eu não desgosto;—disse Alvaro—e, se fossem teus, gostaria muito, prima...