Estava já escripta. Fôra o dulcissimo lavor e fructo da noite desvelada. Eram dez paginas em 4.º grande. Uma biographia escripta com a sublimidade singela que todas as almas percebem, maiormente as almas amantes ou propensas ao amor.

Ao outro dia, ás dez horas da manhã, D. Thomazia (que presentimento!) como ouvisse os passos do aguadeiro, saíu ao mainel da escada para lhe encommendar que comprasse na loja do Antonio das Alminhas uma caixa de agulhas n.º 7. O gallego sacou de entre o collete e a camisa a carta embrulhada n’uma gaseta, e entregou-lh’a tregeitando com os olhos o misterio clandestino do acto.

—Que é?!—disse a senhora.

O aguadeiro sacudiu a cabeça, fechando um olho, como quem diz que não eram necessarias nem opportunas as explicações.

Thomazia, com as pernas tremulas e o coração em saltos, fechou-se no seu quarto e leu.

Topicos essenciaes da carta: A sêde d’amor que abrasava desde a primeira mocidade a alma de um rapaz para quem todas as mulheres conhecidas se figuravam o ludibrio das suas esperanças. O encontro nas ribas do mar, em Caminha. A saudade e a desesperação de a tornar a ver. As noites solitarias de Coimbra e as lagrimas com que elle pedia a Deus a segunda visão do anjo, embora o fulminasse a desgraça no restante da sua vida. A reapparição no theatro. O recrudescer do amor com o proposito inabalavel de se matar, e esperal-a no céo. As mais pungitivas paginas, porém, eram as da narrativa da sua mocidade, sem pae nem mãe aos seis annos, rico dos bens inuteis d’este mundo, e mendigo dos carinhos de uma alma que lhe ensinasse os nomes e sentimentos sagrados da familia, as ternuras da intimidade. Aqui, Thomazia não teve as lagrimas. Compreendeu aquella orfandade, e chorou por seus paes, como se dias antes tivesse visto sair os dois esquifes.

O abalo fôra profundo. Amava-o. Desde que alimpou os olhos para poder ler a ultima pagina da carta, amava-o, renascia, via ali um amigo sem ver ainda o amante, não sabia nem queria entender a sua posição social, não tinha marido nem deveres: era mulher, era uma alma sósinha, a quem tanto montava alar-se para o céo como descer ao abismo.

Não fio que estas frases lhe adejassem no espirito; mas o conceito, a interpretação do seu delicioso devaneio, depois de relida a carta, cifrava n’aquillo.

Respondeu sem medo nem consultar vocabularios. Poucas linhas, e essas, por milagre do amor, quasi correctas. «Vivo muito infeliz—escrevia ella.—Não tenho alegria nenhuma, senão quando leio esta carta que me faz chorar. Não ter pae nem mãe é a maior pobreza d’este mundo. Agora é que eu sei quanto perdi, por que as suas palavras o explicam de um modo tão verdadeiro, como eu poderia dizer, se soubesse escrever. Peço-lhe que me continue a dar o prazer das suas cartas, em quanto alguma desgraça me não privar de as receber. Sou tão sua amiga como uma irmã que não tem mais ninguem. Seja meu amigo.»

Passados quinze dias, Gervasio José de Barros e um irmão com as duas irmãs foram fazer a vindima ás quintas do Pinhão. Motivou uma leve enfermidade da velha D. Thomazia, ficar no Porto o restante da familia.