N’este tempo, o aguadeiro sentira sete vezes a satisfação de trocar uma carta por outra. Entreviam-se a miudo, sem escandalo dos visinhos. A residencia de Nicoláo, durante o dia, era no segundo andar da casa do marceneiro. João Ferreira pagava exuberantemente a dadiva dos trastes, e outras que tornavam a noiva do cartorario cada dia mais rica de seducções á cobiça do seu amado.
O jantar do hospede vinha do hotel com o resguardo conveniente para não suggerir desconfianças. O marceneiro e a filha engordavam a ôlho, de feição que os seios da moça, já de seu natural entumecidos, ganhavam volume que promettia uma ubérrima creadora de filhos, e regalo de lubricos devaneios ao amor licito do regente do tabellionato.
De noite, Nicoláo de Almeida saia embuçado, e recolhia-se ao hotel de Pexe a inventariar os jubilos do dia.
Mas succedeu uma vez que o inventariante dos jubilos diurnos em vez de encaminhar-se para o hotel, ao dar da meia noite, cingiu-se com a parede da casa fronteira, esperou minutos, abriu-se subtilmente a janella do 1.º andar, içou-se sem leve rumor uma corda por uma guita, e um homem pela corda, e a corda seguiu o homem, e fechou-se a janella.
O marceneiro fechou então vagarosamente a sua porta, esfregou as mãos satisfatoriamente e disse:
—Foi muito bem!
Era o jubilo artistico de ter tecido a corda e entravado os ganchos, e disposto as travessas em boas proporções, que foi um gosto ver Nicoláo de Almeida marinhar á janella sem dar de si, nem levemente torcer-se a escada.
CAPITULO XIV
Argumento
Invocação ao anjo do pudor.