Anjo do pudor, embrulha a cabeça nas tuas azas!
Libra-te nas regiões ethéreas onde ainda existe a virtude dos passaros.
Não vás, no tribunal da justiça divina, offerecer libello contra a peccadora da rua das Cangostas.
Anjo do pudor, não te vingues n’ella das desfeitas que recebes desde Bethsabé.
Muitas sei eu que te esbofetearam, ó anjo, e praticam a villanaz hipocrisia de nos querer embair que ainda estás com ellas.
Vae dizer ao supremo juiz que ponha os olhos da sua ira nas que farçanteam no tablado do mundo cobrindo a nudez das Faustinas com a tunica pudica das Porcias.
Repara, ó doce amigo das santas—nem Cortonas, nem Egipciacas, nem Magdalenas—repara, anjo do pudor, que umas de quem tu fugiste, mais enjoado que lagrimoso, dispensam a tua fiscalisação, e cospem injurias n’outras, cujas faces, tu, uma vez por outra, ainda aqueces.
E tu consentes que ellas blasonem e digam que és tu quem lhes volta o rosto das que desamparaste.
Não refines o travor do calix a umas que deram o coração ao remorso, depois que as tuas alegrias se lhes desluziram da consciencia.
Vae, anjo do pudor, embióca-te nas tuas azas, diz ás matronas honestas do reino celestial que não contem com Thomazia; mas não vás tu fazer grandes escarcéos lá em cima, que ha de ahi estar muita alma circumspecta que te diga: «Ora vamos! não berres tanto, que estão aqui muitas senhoras a quem estás offendendo por tabella.»