E mais te digo, anjo do meu maior acatamento, que não ha de ti cá em baixo a necessidade que presumpçosamente cuidas.
A tua fugida não faz revoluções nem abala os eixos sociaes. Ninguem dá tento da tua ausencia, quando saes de uma casa com a cara velada, e ao mesmo passo entra a fortuna com a cornucopia. Os próceres do nosso esterquilinio, quando saltam das suas berlindas ao peristilo das Lesbias, não perguntam se tu estás lá dentro.
Os moralistas tambem lá vão, e dizem entre si que tu és bonito, em quanto a impudicicia, carminando a cara que tu purpurejavas com o reflexo das tuas azas, os faz acreditar que apenas és necessario ás meninas de dez annos para que não digam ás mamãs, deante de gente de fóra, que hão de casar e ter filhinhos.
Vê tu, anjo do pudor, que, d’aqui a pouco, escassamente serás invocado pelos romancistas, e contado pelos dedos nas rimas dos poetas, por que acertaste de rimar com muita coisa.
Emfim, meu sensivel anjo, sê equitativo para ser justo. Atira-me abaixo do pedestal as devassas que te bigodeiam; e, depois, querella de Thomazia das Cangostas. Fiat justitia.
CAPITULO XV
Argumento
Noticias do Pará. Sequidão de Innocencio. Acommisera-se o velho da nora, que não se dá d’isso. Thomazia realça em epistolografia, fazendo suspeitar o sogro de que anda ali cachimonia de maior cunho. Opinião de Innocencio ácerca de viajar. Estuda francez, e vae ver mundo. Encontra em França a neta de uns gentis-homens da Picardia, a qual neta vae ver mundo com elle.
Passados trez mezes, sequentes ao embarque de Innocencio, vieram cartas do Pará.
O cobrador da herança noticiava que estava empossado dos trinta contos. Vituperava a memoria do tio, criminando-o da torpeza de deixar quatro mulatos assignando-se com seus apellidos, e herdeiros de mais de um milhão em moeda fraca. Vexava-se de ser coherdeiro com tal negralhada, e noticiava que ia partir para o Rio de Janeiro.