A Thomazia escrevia meia duzia de linhas, consagradas ao boletim da sua saude e ao desejo de que a consorte passasse sem novidade.

—Cá vou passando... disse ella entre si, quando Gervasio notava n’um lance de olhos á mulher a sequidão das palavras do filho. Tinha o velho dó sincero da sua afilhada.

—Escreve-lhe, Thomazinha,—dizia Gervasio—escreve-lhe que eu lhe direi que isto não é carta que se mande a uma esposa! Estragaram-me aquelle rapaz os vadios do Porto, os comedores, os mariolas dos botiquins! Escreve-lhe uma cartinha amorosa, sim, minha filha?

—Pois, sim, meu pae;—disse ella mui de mimo e dolorida—mas, se elle me despresa, é peior estar eu a impaciental-o com as minhas cartas...

—Não, senhora; escreve-lhe como te digo, p’ra dizer cá com a minha carta.

Que prodigio de fantasia operou Thomazia para poder alinhar um quarto de papel inglez com umas frases assim a modo de saudosas com ares de amorinhos!

O velho leu-as, e obedeceu ao impulso de espanto, exclamando:

—Ó menina, isto não é da tua cachimonia! parece-me copiado do «Feliz Independente» que tua mãe me leu no Douro ha mais de vinte annos! Tu já leste a historia do «Feliz Independente»?!

—Não, senhor.

—Pois olha, ninguem hade dizer que este palavriado é teu! O Innocencio vae ficar banzado, quando lá vir estes ditos!