—Ora!... o pae está a mangar comigo!...
—Agora estou! Palavra! tu dizes aqui coisas que parecem dos periodicos!
Gervasio foi ler a carta á esposa. A santa senhora pagou o seu tributo de lagrimas, quando a leitura chegou á seguinte passagem: Já que não tenho o teu amor nem a tua amizade, dou graças aos ceos por que me não levaram o amor de tua santa mãe e de teu santo pae. Alguma coisa me havia de dar a Divindade Celeste a quem peço que te dê saude e satisfação...
Thomazia, se tivesse capacidade para imitar estilos, poderia dar de si, no genero epistolar, coisa melhor; que o mestre era excellente e as lições, quer escriptas, quer oraes, muito amiudadas. Sem embargo, os progressos não correspondiam á frequencia do pedagogo, cuja linguagem era assim correcta que sublime. Thomazia aprendia sómente o que podem entender e saber as faculdades do coração. O estilo do coração, se algum elle tem, a meu ver, é de todos o mais desatado e avesso da boa prosodia. As suas flores são beijos quando não são lagrimas. D’estas segundas não tinha ainda Thomazia experiencia: dos outros, não affirmo nem nego. Não vi.
Mez e meio depois, vieram novas cartas de Innocencio datadas do Rio de Janeiro. A mesma friesa com a esposa, e muitos affectos ao pae, desfechando com pedir-lhe licença para ir do Rio a Inglaterra, e ver as cidades principaes da Europa, antes de recolher-se a Portugal. Allegava o sujeito uma razão que, a juizo d’elle, rebatia quaesquer obstaculos. Quem vê mundo, escrevia elle, aprende tudo quanto ha sem ler livros. As viagens dão muita experiencia dos homens.
Posto isto aforisticamente, continuava: Estou a aprender dois dedos de idioma francez: (a palavra idioma entalou os gorgomilos intellectuaes de Gervasio) o francez é preciso saber-se para não fazer má figura. Logo que possa andar por lá de modo que eu me faça entender, vou vêr mundo, isto é, se vocemecê e minha mãe não se opposerem, o que não espero da sua amizade paternal e maternal.
—Estás um bom trapólas!—disse em soliloquio o bom velho.—Que irá elle fazer agora por esse mundo de Christo?! Pilhou-se c’os trinta contos, e não vem p’ra casa sem dar com elles em Pantana! Deixal-o! Cavalladas por cavalladas, antes as faça longe da minha vista.
Mostrou-lhe Thomazia a sua carta, dizendo:
—Aqui tem, padrinho; veja que modo de me escrever! Diz que tem saude e que me deseja a mesma.
—Tem paciencia, filha...—respondeu o velho consoladoramente, pondo-lhe a mão no rosto.—Elle cá virá, quando se cançar de ser máo e ingrato. Agora me pede licença para ir viajar... Olha tu que asneira!... E eu não sei o que heide responder-lhe...