—Se elle quer ir... acudiu Thomazia, e susteve o restante da idéa, receiosa de inspirar desconfiança da sua indifferença; e, tornando logo sobre si, emendou:—Se elle quer ir, é por que não tem saudades de mim... O que eu admiro é que as não tenha de seus paes, que lhe querem tanto...

—Valha-me Deus!—voltou o compadecido velho.—Olha que estás enganada; meu filho quer-te bem; mas foi de cá zangado com o diabo dos Barcellos...

—E eu tenho culpa?!

—Está feito, está feito, menina... aquillo de escreveres ao outro não foi grande coisa... Um homem, que gosta de uma mulher, não leva a bem que os outros andem a dizer que ella tambem gostou d’elles. O rapaz ficou varado, e custou-lhe a engolir o vexame. Fizeste mal, Thomazia; mas... emfim o passado passado. Agora o que se quer é paciencia, e esperar que elle venha á razão. A carta que lhe escreveste ainda agora estará a chegar-lhe á mão. Verás como elle muda de idéas logo que a receber. E o que tu hasde fazer, filha, é arrumar-lhe já com outra. O Silencio sae ámanhã para o Rio Grande do Sul e faz escala pelo Rio. Escreve-lhe hoje que eu vou já fazer o mesmo.

Novas e redobradas maravilhas de espirito! A carta de Thomazia, se não recendia saudades, ia menos mal engenhada com umas melancolias queixosas, mas logo dulcificadas por balsamos de resignação.

Gervasio gostou muito, e segunda vez espremeu os lacrimaes da esposa.

Em quanto não chega este mimo d’alma exemplar de paciencia ao Rio, vejamos as saudades que a primeira carta commove no peito do esposo. Estava elle conjugando o verbo parler, quando lhe entregaram a correspondencia da Europa. Lida a carta do pae, leu a da mulher, e releu a do pae. Entristeceu-se e compadeceu-se. Era a primeira vez que mansamente, e em tom de amorosa, Thomazia se queixava do seu desamor. Seguiram-se uns pruridos de saudade n’alma, e logo o apparecimento ideal da formosura de Thomazia, com uns encantos renovados, como se aquella imagem lhe tivesse esquecido, e renascesse mais bella para lhe captivar a um tempo a alma e a razão até alli desvairadas.

Por um fio que mudou o designio de ir em cata da experiencia do mundo; mas poderam muito a retel-o no proposito feito os estudos progressivos da lingua franceza, e o anceio de aprender tudo quanto havia, sem ler livros.

Quando recebeu as segundas cartas, quarenta dias depois, tinha já enfardado para seguir no primeiro vapor inglez. Leu as novas, mas brandas queixas da esposa; sentiu-se bem com a crença de ser amado, e projectou desde logo não se demorar mais de trez mezes na sua visita ás capitaes da Europa.

Foge-nos agora o tempo sem paragem de acontecimentos que prestem á essencial narrativa. Decorridos quatro mezes, Innocencio José de Barros estava em Florença, e não estava sósinho. A creatura interessante, que o acompanhava, era no hotel conhecida por madame Barros e el signor de Barros gosava creditos de opulento hespanhol. Madame Barros era franceza, carinhosa, corrigia-lhe com infinita graça os erros de linguagem, e formava-lhe com os labios nos d’elle frases puro parisienses. Innocencio estava um homem acceitavel em qualquer sala e muito conversavel, de fóra parte a compostura pessoal, que toda se devia ao gosto delicado da franceza em materia de trajar. A civilisadora d’aquelle bruto em ruins tempos, tinha sido officiala de alfaiate, e n’outros peores, commensal de estudantes no quartier latin. Mas mr. de Barros não contava isto aos seus conhecidos de Florença. No dizer e crer d’elle, Jacqueline Beaulieu de Rastignac era victima de um seductor que a raptou no chateau de seus paes, fidalgos picardos de primeira raça.