—Ainda vive?

—Vive morto.

—Como? Vive morto?!

—Lá chegaremos... Representava-se a Degolação dos Innocentes, e era um domingo de tarde...

—Bem me lembro—atalhei eu.

—Estás certo d’aquelle pedaço de omoplata de carneiro que caiu sobre ti d’um camarote de 3.ª ordem?

—Se estou!

—Muito folgo que te lembres. O Nicoláo apanhou-a do chão n’um lenço que levantou pelas pontas, e convidou-nos a seguil-o ao camarote onde o cordeiro, tambem innocente, soffrêra as consequencias da degolação. Recordas?

—Mal. Ajuda a minha memoria que se está deliciando n’essas recordações liricas.

—Fomos e vimos uma familia de varios Herodes, descarnando as costellas da victima com um ranger de dentes bastante a justificar que ainda temos que farte sangue e queixos hellenicamente ruidosos, d’aquelles que Homero cantou. No camarote estavam, á primeira luz, varios sujeitos gordos e mulheres de condigno bojo que representavam em geral e cada qual em particular um curral de carneiros assados e digeridos. As esposas e filhas e irmãs, ou o que eram d’aquelles antropófagos, tinham as mantilhas penduradas dos cabides, dando ao interior do camarote um aspecto lugubre de ágape gentilica onde as victimas sacrificadas fossem logo comidas. Um dos sacrificadores, que parecia o mais auctorisado por ter em punho a cabeça meio descascada do cordeiro, suspendeu-se no lanço de a levar aos dentes engatilhados, e, arrotando, regougou: