«Os senhores que querem?!»

Nicoláo fez uma grave mesura, estendeu o braço para dentro com o lenço pendurado e respondeu solemnemente:

—Foi d’este camarote, sem duvida, que uma das senhoras deixou cahir a parte respectiva do bôdo?

—Do bode??—perguntou o chefe dos cannibaes, forçando com um arranco interior a descida do bocado que lhe entopia os gorgomilos.

—Do bode,—tornou Nicoláo—se vossa senhoria quer que seja bode, carneiro, porco-espinho ou como é que deva chamar-se o animal comido e ex-proprietario d’esta pá.

—Foi o Felizardo que deixou cair...—disse uma creatura femeal, relançando a vista repreensiva sobre o sujeito que se chamava Felizardo.

No entanto, o nosso amigo, com ademans de quem entrega uma luva que alguma formosa senhora lhe deixou feliz e acintemente cair ao alcance da mão, acercou-se d’uma das trez senhoras esphericas, e deu ares de lh’a querer depositar no regaço, largando trez pontas do lenço.

—Ai, credo!—exclamou a velha sacudindo as mãos e encolhendo contra o tabique a parte proeminente da região umbilical, expressões que deves empregar, se escreveres a historia, por que o termo do uso commum é d’aquelles que tresandam a theatro anatomico. Lembras-te d’isto?

—Como se o estivesse vendo—confirmei eu alanciado de saudades.—Até me recordo de uma bellissima rapariga que estava n’esse camarote.

—Bem sei eu por quê... Era ella uma das formosuras que ficam impressas na alma, atravez de annos e seculos, como as virgens de Urbino ou as outras imagens menos virgens de Ticiano. Que sabes tu d’essa mulher que viste ha vinte e dois annos?