—Nada: creio que nunca mais a encontrei... decerto não. Apenas me lembro de que Nicoláo d’Almeida me escreveu para a provincia, dias depois do episodio do carneiro, e me dizia que estava apaixonado pela mulher divina que comia carneiro. Não dei peso á linguagem chula da noticia, nem tornei a vêr Nicoláo d’Almeida. Alguem me disse depois que elle vivia relegado no seu solar do Alto Minho, e que não concluíra a formatura. Ha mais de quinze annos que ninguem me fallou d’elle. Agora me dizes tu que o Nicoláo vive morto... Coitado! Queria ainda vel-o n’esse estado extravagante!... Começo a crer que me dás uma idéa original...

—Lá chegaremos... O caso é que te recordas bem da menina que se escondia entre as mulheres gordas com uma andorinha entre trez peruas?

—Sim.

—Pois então ahi tens um dos personagens componentes da idéa original que te offereço.

—Quem? a tal?! Aquella familia como original podia figurar nas exposições fotograficas; mas considerada idéa não me daria para um capitulo. Pelo que vejo, a idéa offerecida com tão magnanimo desinteresse é a pá descarnada do carneiro!...

—Principia ahi pontualmente. Olha que começos teve uma tragedia obscura!... Continuemos as reminiscencias de 1845. Nicoláo, ao dar de rosto na mulher que se retraía de ser vista, quedou-se dois segundos a a contemplal-a, perdeu o engraçado atrevimento, e saíu do camarote canhestramente como se fosse corrido. Quando desciamos a platéa, disse elle: «Eu vi aquella mulher em Caminha ha anno e meio; e, desde que a vi, outra imagem não pude mais vêr em meus sonhos, nem encontrei mulher que m’a fizesse esquecer. Aquella é a minha inevitavel fatalidade!»

—D’isso é que eu de todo me não recordo.

—Talvez lh’o não ouvisses. Entramos á platéa. Nicoláo nunca mais desfitou a vista do camarote da 3.ª, sem que visse a linda cabeça de Thomazia (chamava-se Thomazia) por entre os volumosos commensaes. Saimos ao vestibulo, concluida a tramoia de Herodes, e esperamos que ella descesse. Tu já tinhas saído no intervallo do 3.º acto, e por isso não assististe a um rasgo de generosidade com que pódes fechar originalmente a introducção do teu romance.

Chovia a odres. A familia carnivora esperava no pateo que estiasse a chuva cada vez mais torrencial. Nicoláo d’Almeida saíu açodado dizendo-me que o esperasse. Guiado prosperamente pelo amor, foi topar um carroção que despejava as ultimas dez pessoas da terceira familia em uma casa da rua de Santo Antonio. Offereceu ao carreteiro porção fabulosa de pintos, e conduziu á porta transversal o carroção que, debaixo das cataratas do céo, parecia a Arca Santa no trigessimo nono dia do diluvio universal. Avisinhou-se cortezmente o bacharel da familia que se aconchegava como rebanho que farisca lobo, e disse voltado a um dos trez homens gordos:

—Tomo a liberdade de offerecer a vossas senhorias um carroção que os conduza a sua casa.