—Este e o do osso...—disse uma das gordas á orelha da outra.
A menina achegou do cóllo a mantilha e baixou os olhos divinisados de pejo.
O sujeito, a quem Nicoláo se dirigira, respondeu bem-humorado:
—Não é de desagradecer o favor, porque chove que tem diabo, e nós moramos nas Cangostas.
O nosso amigo saíu debaixo do alpendre e disse ao boieiro: «Leva estes senhores á rua das Cangostas.»
E, cortejando o rancho, saíu comigo pela outra porta, murmurando: «Que mulher!»
—Bem!—exclamei eu, já temos dois não vulgares elementos para um romance ideado originalmente; a saber: a pá d’um anho e um carroção! Duas especies raras!
Antonio Joaquim proseguiu até noite alta a historia.
Devo confessar abertamente que o enredo, confiado a compositor de engenho affeito a immolar a verosimilhança para comprazer a dois ou trez leitores, dava largas a fantasias originaes. Na minha officina, por mais que a Europa se queixe, as obras hão de sair sempre fundidas das fôrmas da verdade. Não importa que o verdadeiro orce pelo fastidioso, e as maravilhas da invenção lhe ganhem no stadío da popularidade. N’um paiz de gente que lê sempre, como este em que os paes se reproduzem para ter o gosto de dar leitores á republica litteraria, ha partidos para todas as bandeiras da milicia intellectual. Eu, de mim, sem invejar a voga dos meus visinhos, conto sempre com consummidores que vencem em sêde de lêr a temeraria affoiteza dos editores. Escrevo para a gente séria. O meu partido é o da gente séria. Tenho por mim todos os amigos da verdade que assignam as correspondencias das gazetas. Para estes e outros inéditos é que eu vou concertar os apontamentos que hontem escrevi, ao compasso da narrativa do meu amigo Antonio Joaquim, a quem deixo aqui estampada a minha eterna gratidão.