O SANGUE
CAPITULO I
Argumento
Fundação da rua das Cangostas, no Porto; origem dos Barros, e sua descendencia até ao seculo XIX. Diz-se quem comia o anho no theatro de S. João e outrosim quem era a menina que tolheu o espirito de Nicoláo. Dá-se noticia de Innocencio. Virtudes do negociante, e suas duvidas a respeito da liberdade. Não entende o que seja diplomacia, e representa o fervor constitucional dos seus contemporaneos. Como Gervasio José se bateu para que o não roubassem, e dá assim a razão por que se bateram muitos que foram liberaes depois. Lagrimas de creança. A razão por que os orfãosinhos não choram.
Quando os frades de S. Domingos, do Porto, no primeiro quartel do seculo XVI offerecêram terreno da sua cerca aos portuenses que quizessem edificar, muitos aceitaram a liberdade dos dominicanos, e para logo se formou a rua das Cangostas. Um dos fundadores da nova rua chamava-se Pero Barrios, judeu oriundo de Castella, e official de tecidos de prata e ouro.
Os filhos de Pero, indecisos entre Moisés e Jesus, inclinaram-se á religião que mais os caucionava de sustos e desfalques no seu prosperado commercio. Seguiram pontual e ostensivamente o rito romano, guardando em secreto os preceitos d’uma religião comesinha que ainda hoje nos parece ser a predominante na Europa: a religião da absoluta indifferença por todas.
D’esta arte, a familia Barros, já aporteguezado o appellido hespanhol, fruia socegadamente os seus haveres mediante as toleraveis incommodidades de ir, cada quaresma, confessar culpas veniaes aos dominicos, de presentear o prior com algumas varas de galão de ouro para guarnecer os paramentos sacerdotaes, acudir aos jubileus, aos lausperennes, e á missa nos dias santos com fervor edificativo.
Estes trabalhos eram suaves e bons de levar comparados aos dos contumazes e boçaes hebreus, que, por amor das tabuas da lei, se deixavam levar de casa á mesa do santo officio, da mesa ao carcere, do carcere á polé, da polé ao templo de Jesus misericordioso, do templo ao tribunal civil, e d’aqui á fogueira. O filho de Jethro, por optimo legislador e subtil embaidor que haja sido, realmente não valia tanto.
Outro Pero de Barros, bisneto do primeiro morador na rua das Cangostas, reedificou a casa de seu bisavô, fazendo-lhe portas voltadas á rua, feitio que a camara do seculo XVI não consentira sem pleito aos primeiros edificadores, como se depreende de um documento ainda archivado no cartorio municipal.[1]