[1] Veja o LIVRO 1 DAS CHAPAS, fl. 314. A camara queria perceber fôro das casas que tivessem portas para a rua, e embargava a obra dos esquivos ao pagamento. Os frades ganharam o pleito, fazendo levantar os embargos e isentar os proprietarios.
Aquelle Pero de Barros era já abastado em 1700. Seus filhos levantaram mão da tecelagem de ouro e deram-se ao commercio de estofos chamados de Damasco. Em 1750 os netos do segundo Pero, já muito ricos, mercadejavam em vinhos, e possuiam grandes montados no Douro que plantavam de vinhaes, animados pelo trafego mercantil que respondêra cabalmente ás previsões do ministro de D. José I.
No primeiro quartel d’este seculo, os Barros eram contados entre os maiores proprietarios do Porto, e tinham largado todo o negocio, laborando tão sómente na cultura dos seus bens de raiz.
Dizia, em 1806, João Maria de Barros, representante dos antigos e já esquecidos israelitas de Cordova, que seu pae lhe deixára em dinheiro de contado quinhentos mil cruzados em ouro, estipulando-lhe que esta reserva a transmittisse intacta aos seus descendentes, com a obrigação restricta de darem este dinheiro para a reedificação de Jerusalem, se alguma hora os hebreus dispersos se congregassem e fintassem para renovar a cidade de Salomão, consoante o promettido pelos seus profetas. Este pio legado acabou na pessoa de João Maria de Barros, em razão de lhe entrarem em casa os francezes invasores em 1808, e descobrirem debaixo d’um leito de páo santo o cofre ferrado com o recheio dos quinhentos mil cruzados, os quaes a esta hora constituem, em Pariz, a opulencia de alguma duqueza, filha do soldado, que roubou a casa da rua das Cangostas, e morreu general do imperio.
De João Maria ficaram trez filhas e trez filhos. O mais velho, Gervasio José de Barros, casou em 1820 com uma parenta. Os outros ainda em 1846 estavam solteiros, e de crer é que já não casassem, porque todos eram maiores de cincoenta annos, segundo me parecêram nos instantes em que os vi no camarote do theatro de S. João.
Esta era a familia que comia o carneiro assado, em quanto os algozes de Herodes afinavam os cutellos para a degolação dos quatorze mil meninos da Judéa, horror que parecia não pungir grandemente o coração d’aquella familia mais ou menos aparentada com os pequerruchos descabeçados.
No camarote, porém, estava uma formosa menina: d’essa vamos agora esclarecer os dois leitores que ainda não adormeceram.
Um capitão de infanteria n.º 18, aquartelado em Santo Ovidio, do Porto, teve de sua mulher uma filha em 1826.
A mãe da creancinha morreu de parto, e o capitão, com a filha ainda mal lavada nos braços, fazia grandes clamores á beira do cadaver da esposa.
A residencia da morta era fronteira á casa de Gervasio José de Barros. A senhora Thomazia, mulher do negociante de vinhos, ouvindo os gritos do attribulado viuvo, atravessou a rua com suas cunhadas, e foi topar com o espectaculo tristissimo. Queriam as boas creaturas consolar o viuvo, offerecendo-se a cuidar da creação da menina, se elle não tinha pessoas de familia que o fizessem com mais direito. O official, debulhado em lagrimas, confiou a filhinha á misericordia das trez senhoras e rogou á alma de sua mulher que pedisse a Deus as cobrisse de bençãos e prosperidades.