Leu Innocencio a carta do pae, que resava assim:

«Vou-te dar uma grande alegria. Como dizes que vaes para Veneza, mando-te para lá esta carta, por via do vice-consul italiano. Saberás que tua mulher nos deu o maior cuidado, e pensámos que ella tinha grande mal interior; por que andava muito amarella e chupada da cara que parecia uma castanha sêcca. A gente perguntava-lhe o que ella tinha, e nada de novo. Queixava-se de enxaquecas, e comia como um passarinho. Depois passou-lhe aquelle fastio e pegou a comer melhor, mas andava triste como a noite, sempre a matutar e a chorar pelos cantos. Até que um dia, tua mãe veio ter comigo e disse-me:—Ó Gervasio, eu desconfio que ella não sabe o que tem; mas olha que o meu olho não mente: a rapariga traz menino na géra. Repara-lhe p’ráquelles encontros!—Tu que me dizes, mulher? Isso era uma felicidade para todos! O Innocencio se souber isso vem logo p’ra casa, não te parece?

«Vae ella, depois, foi ter-se com tua mulher, é disse-lhe a sua desconfiança. Tua esposa começou a negar, e dar as suas razões; mas tua mãe protestou que não se enganava, e para o que mandou chamar o mestre da escola de cirurgia, o Sinval, que a examinou e disse que estava de cinco ou seis mezes. De cinco lhe disse eu que não podia ser, porque tu tinhas ido para o Pará ha seis. Então é de seis, disse elle; mas digam-lhe que não ande tão espartilhada.

«A gente ficou alegre como tu podes imaginar; mas ella sempre triste, que não te digo nada!! Acho que está com medo de morrer, e não ha forças que lhe dêem animo. De maneira, que cá pelas nossas contas d’aqui a quatro mezes deve apparecer o que fôr: oxalá que seja um rapazito.

«Terás tu a má condição de não vir para a tua casa antes d’esse tempo? Falta-me ver isso, meu filho!!!!! Não dês que fallar ao mundo n’este caso, que é de ficar mal para todo o sempre um homem. Logo que esta recebas, deixa-te de pagodes, e vem a toda a pressa para lhe dar animo; que ella está como uma tumba. Pede-te tua mãe que compres por lá um enxoval rico por conta d’ella; porque já sabes que os padrinhos somos nós, etc., etc.»

Quando chegou por aqui, Innocencio mal enxergava os caracteres. Zumbiam-lhe vespas na cabeça, ferroando-lhe os miolos. Lavaredas internas queimavam-n’o desde o diafrágma até aos beiços. O tremor das pernas fêl-o sentar-se de pancada n’uma voltaire, como se o derrubassem com uma catapulta jogada ao peito. Cravára no tecto os olhos betados de sangue. Nem amor nem odio á franceza lhe braseava o espirito extraviado. Varrêra-se-lhe de todo da lembrança a mulher a quem, horas antes, promettêra a mão de marido, se um dia enviuvasse, e lhe ella guardasse lealdade. Não a via sequer em imagem; mas, se a visse, tangivel, laceravel e capaz de afogar-se no proprio sangue, iria espedaçal-a a dentadas: porque a infame lhe retardára apunhalar a adultera.

Apunhalal-a, sim! esta era a idéa que lhe revia sangue nos olhos e rangia nos dentes.

Levantou-se de golpe como tigre assaltado de surpreza. Correu ao quarto, chamou criados, emmalou e alugou carruagem com frequentes mudas para França.

Quando chegou a Pariz, doze dias depois, entrou na via-ferrea para o Havre, pressurando-se em ir a tempo de embarcar no «paquebot» que navegava para Portugal. Porém, quando chegou, ao fim de cinco dias de insomnias, de fraqueza á mingua de alimento, de sobre-excitação febril, e impaciencia devorante, caiu de todo quebrado e incapaz de se mover do hotel até ao navio. O medico examinou-o e saiu esperançado da cura, obstando-lhe ao intento de se fazer levar para bordo em braços.

Obedeceu o enfermo, e pediu que lhe enviassem para o pae esta breve carta: Ha poucos dias que recebi a que me escreveu para Londres, dando-me parte dos prazeres que lá tem. Não me demorei onde estava; mas cheguei tão doente ao Havre, que fico na cama. Dezoito dias mais tardar é o que poderei estar por aqui. Lá vou tambem dar um terno abraço em minha mulher. Não posso mais. Seu filho muito do coração, Innocencio.