Quando Innocencio foi para o almoço com a alma e estomago livres de peso, já a risonha e indulgente commensal tinha um misterioso annuncio da criada que a servia. Fallára-lhe de um conde de certo condado inglez, que se pronunciava com cinco ff, incompativeis com a doce lingua millaneza. E mais nada podera dizer-lhe.

Innocencio não se desabeirou n’aquelle dia da franceza. Agora a estava elle amando em tresdobro. Dizia-lhe coisas que não pareciam suas. Passava de tolo a eloquente, como se Amor e Minerva, n’aquelle dia, se revezassem a senhorear-lhe o espirito que até então andára sempre nas divindades da ralé celestial.

E ella voltava-lhe em surrisos as caricias, e dissimulava o enojo impaciente com as momices do coração magoado.

Sobre tarde, Innocencio deteve-se com o mestre de dança, e Jacqueline com a criada.

Coração, figados, baço, e tudo de Innocencio funccionava normalmente no dia seguinte.

A franceza pediu-lhe um leque de sandalo. Saiu o jubiloso amante a comprar leques de varios feitios.

Voltou com o folego apressurado. Entrou á ante-camara do seu quarto. Não viu o seu enlevo d’olhos. Procurou-a entre os cortinados do leito. Foi á sala do piano. Interrogou os criados. Ninguem lhe daria novas, se a criada do toucador da madame Barros, lhe não dissesse:

—Madame saiu, levou seus bahús, e deixou esta carta para vossa excellencia.

A carta, envolucro de outra, dizia:

Sem tempo para mais, adeus. Murros vá dal-os em sua mulher. E é tempo de ir. A carta inclusa dá-lhe uma noticia que o deve apressar a ir receber nos braços o pimpolho. Se é verdade o que me disse da sua casta união, tanto peor para o senhor. Lá se avenham.—Jacqueline B. de Rastignac.