Argumento
Apanha a franceza um murro portuguez de lei. O esmurraçador vae comprar leques, e quando volta não acha a creatura socada. Dão-lhe uma carta, em que elle aprende miudezas do fenomeno da gestação, em que o pae o considera agente de primeira ordem. Fervem-lhe os miolos, e corre a vingar-se: Adoece no Havre de febre cerebral, e está perigoso. Chegam noticias ao Porto. Scenas pateticas. Thomazia, no auge da atarantação, perde os sentidos, e dá á luz um menino de oito mezes, em resultado do susto, que costuma aperfeiçoar obstetricamente e fenomenalmente estas coisas. Dois infernos ambos elles mais peores, como dizia o negro dos dois senhores que tinha tido.
Quinze dias corridos, um viajante inglez que estadeava equipagens e librés, viu a franceza no theatro Scala de Milão, e perguntou entre dois bocejos quem era aquella creatura de olhos piscos e sobrancelha negra.
Deteve-se a resposta em quanto os informadores desvelados andaram escudrinhando nos hoteis a procedencia da ditosa que se endeusára a um raio visual do ricasso bretão.
Innocencio dera trez vezes de olhos com o binoculo do inglez apontado ao seu camarote, e raciocinou que não era elle de si objecto para attenções tão pertinazes. Antes do acto 3.º convidou a franceza a sair; mas a rebelde rejeitou o convite, desculpando-se com o amor da musica. Ia cantar a Ferlotti a romanza da Favorita: Ó mio Fernando. O galã portuense trincou o beiço com desamor e raiva tal, que apertaria mais brando o dente iracundo no coração de Jacqueline.
Concluida a opera, sairam amuados e desavieram-se em casa pela primeira vez. A franceza descomediu-se em remoques e desabrimentos. Innocencio amava das entranhas aquella mulher que lh’as cancerára. Do muito amar ao injuriar por ciumes, medeia meio passo: o bater está linhas adeante. A franceza apanhou um revez de mão portuense que corresponde ao murro de um ciclope. Empinou-se a parisiense deante do homem da rua das Cangostas, e disse-lhe:
—Ámanhã pagarei as despezas que fizer n’este hotel.
Innocencio caiu em si, e logo em joelhos, exclamando:
—Tem piedade de mim, que estou doido de ciumes. Amo-te! amo-te! Ouve-me, Jacqueline! se me não ouves, mato-te e mato-me!
Esta concisão denotava tenções sinistras. A franceza teve-lhe medo, e aquietou-o. Mas não chorou, como as mulheres ultrajadas, quando perdoam. Devia de ter levado outros murros aquella dama, ou a traça da vingança estava armada.