Baptisou-se, pois, aos dez, sendo padrinhos os avós; (o assento baptismal dizia avós: não sejamos mais escrupulosos que o abbade na propriedade dos termos.) Chamaram-lhe Pedro, em memoria de alguns seus antepassados illustres na linhagem.

Não deram noticia do nascimento ao pae, (o assento dizia tambem que Innocencio José de Barros era pae) visto não haver tempo de chegar a Havre de Grace a nova, antes de elle se abalar para Portugal.

Estamos em julho de 1846.

Espera-se que o paquete francez aviste a barra do Porto no dia 18.

Ao anoitecer do dia 15, Thomazia recebeu da mão do aguadeiro a terceira carta de Nicoláo d’Almeida, escripta n’estes termos:

«Está tudo preparado. Já tenho no hotel a ama para o menino. Assim que ámanhã anoitecer, sae. Espero-te aqui defronte. Logo que te vir sair, sigo-te, recebo o filhinho, e tu vaes indo a meu lado até á rua dos Inglezes onde nos espera a sege. Ámanhã mesmo partimos para Caminha. De lá, se nos incommodarem, iremos para Hespanha. Onde quer que chegarmos, encontraremos a felicidade. Ainda bem que eu não desbaratei a minha juventude em falsas delicias que derrancam e envelhecem a alma. Sinto-me pae e esposo em todo o vigor de um coração novo, robustecido pelo teu amor, minha graça e formosura do céo.

«E o meu filhinho? Sabes que o vi baptisar? Olhei para elle em quanto as lagrimas me deixaram. Estive quasi a pedir á ama que me consentisse beijal-o. Que sensações me tumultuavam na alma! Aquelle sentir nascer um amor novo que me enchia o coração!...

«Deixa-me abafar a saudade; que, se não, fico a escrever-te, e são horas de te avisar.

«Não sei como te has de haver com tirar o menino, sem darem fé!... Dêem ou não, é forçoso, Thomazia! Nem mais um dia, porque me dizem que o paquete francez algumas vezes se antecipa quarenta e oito horas e mais, quando, peor ainda, não acontece sair algum extraordinario do Havre.

«Eu só descançarei, quando puder abraçar os meus dois queridos amores, e pedir então a Deus que nos perdôe, se não é possivel santificar a nossa união. Espera, minha filha; que o nosso anjinho ha de pedir por nós.»