—Iria para Caminha?
—Não sei.
O artista pediu ao dono do hotel que lhe alugasse cavallo para ir levar uma urgente noticia ao fidalgo; mandou recado á filha, e partiu na piugada de Nicoláo, caminho de Villa do Conde.
Ao abrir da manhã, avistou além de Casal de Pedro os dois cavalleiros, que reconheceu pela libré do lacaio. Nicoláo ouviu brados á rectaguarda. Parou, deixou avisinhar o cavalleiro que batia as pernas á espora fita, e reconheceu o marceneiro.
—Que ha?—perguntou Almeida, a distancia.
—Que ha? morreu o senhor Innocencio.
—Como?!—volveu Nicoláo, em quanto a viuva, a tremer sobre as andilhas, abafa o respirar para não perder uma sillaba das palavras de João Ferreira.
—Lembra-se vossa excellencia quando a minha filha disse que ia entrando muita gente para casa da senhora D. Thomazinha?
—Sim.
—Eram negociantes que acompanhavam o senhor Gervasio, onde vinham dois que desembarcaram e trouxeram a noticia de ter morrido na França o senhor Innocencio. Assim que vossa excellencia saiu e mais a senhora, d’ali a pouco, fecharam-se as janellas. Eu disse logo á minha companheira: «Ó mulher, aquillo é novidade! pois com este calor fecham já as janellas!»—«Que queres tu? (disse ella). Se te parece!... Fugiu-lhe a nora, elles não sabem d’ella... estão a gritar, e fecham as janellas por isso.» «Não (disse eu) ali ha coisa de maior!» Tirei-me dos meus cuidados e desci á rua. Cheguei-me a uns senhores que estavam á porta do senhor Gervasio, e perguntei se havia alguma novidade.—Morreu no Havre (acho que disse isto) o Innocencio de Barros. N’isto vinha saindo um sujeito, e disse aos que estavam: «Vocês não sabem? A mulher do Innocencio fugiu esta noute. Vae lá em cima uma barafunda de gritos que nem o diabo se entende! As velhas estão todas desmaiadas; o Gervasio está n’um pasmo mortal. Desgraça d’este calibre, nunca eu vi!»—Puz-me á espreita a ver o mais que diziam uns que vinham e outros que iam, e contavam a mesma coisa. Só houve um que disse: «Se querem saber onde está a mulher de Innocencio, procurem-n’a no hotel do Pexe, que móra lá o brejeiro (vossa excellencia hade perdoar) que lhe andava por aqui a raspar a asa. Eu bem n’o disse, mas ninguem fez caso. Melhor fizera eu, se tivesse avisado o Gervasio.» «Não, que a esse respeito (disse outro d’ali, que por signal era o commendador Batalha) a esse respeito eu lhe conto: não ha muito que eu estava aqui na visinhança mettido n’um pateo á meia noute e um quarto, pouco mais ou menos, e vi botar uma escada de corda a esta janella, e subir um homem, e metter-se lá para dentro, e mais a corda.»—«E você calou-se com isso?—Veio d’alli outro.—«Calei-me, respondeu o Batalha, porque não sou o almotacé das honras alheias; cada qual que guarde a sua casa.»