Eu assim que ouvi isto, meu fidalgo, despedi por ali arriba, que não sei como não botei os fidalgos pela bocca fóra... Depois, foi um raio por essa estrada fóra catrapós, que trago aqui o garrano a dar as ultimas. Aqui tem vossa excellencia o que ha. Sirvo para amigo ou não?

—É um bom, e não sei se o meu unico amigo, senhor Ferreira—disse Nicoláo, apertando-lhe a mão.

—Não ouviu dizer nada do meu filhinho?—perguntou a viuva.

—Não, minha senhora. Ninguem lá fallou no menino.

—E agora? que fazes, Nicoláo?—tornou ella, voltando-se para o pae de seu filho.

—Tudo estava salvo, se não foges... murmurou o de Caminha muito concentrado.

—Mas posso agora ir... acudiu ella.

—Segundo desatino—obstou Nicoláo.—Estás prohibida de deliberar, minha filha—proseguiu o moço em tom de suave preceito.—Senhor Ferreira, siga-nos para Villa do Conde: lá pensaremos. Não ha razões para precipitar qualquer resolução. Estás viuva, estás livre, Thomazia. O teu filho has de reclamal-o: ninguem tem mais direito do que tu a possuil-o. Agora estão as leis por ti. Socega. É uma questão de pouco tempo.

Deixal-a expandir agora a sua silenciosa alegria. Aquillo sim, que é tragar liberdade a sorvos deliciosos. Se ali não fossem duas testemunhas dos seus transportes, Thomazia pediria a Nicoláo que a deixasse desafogar em gritos de exultação bem aconchegada do seio d’elle. O filhinho é d’ella: disse-lh’o tão sobre o seguro o pae! É seu: dentro em pouco, poderá despir-lhe o lucto; e, quando elle souber proferir a palavra pae, ninguem lhe dirá morreu! Que lhe faz a ella que a riqueza de Gervasio não seja para seu filho? O pae é tão rico, é tão brioso, que não ha de querer que o seu menino se appellide Barros para succeder na herança de algumas duzias de contos! Fluctuando de idéa em idéa, disputada por uma á alegria da outra, de vez em quando foge-lhe um suspiro desafogado por entre surrisos que lhe desbordam do seio.

Nicoláo, porém, vae triste: sente cair-lhe e queimar-lhe sobre o coração uma torrente de lagrimas; relucta por tirar a consciencia de sob o peso d’um cadaver. Quer elle imaginar que a sua misteriosa amargura são parvulesas de poeta, e de amador novel que ainda não tem abroquellado o peito para rebater os golpes do remorso. Quer e succumbe. Vae pois mais amargurado do que virera até ao momento em que lhe disseram: Caminha a passo; não fujas; que o marido d’essa mulher é morto; e o deshonrado pae que ficou a choral-o é um ancião.