—Pois aquillo é um tratante!... Olha, olha, como elle se explica.
—Estes malvados—proseguia o commendador Batalha, batendo murros nas proprias pernas—estes malvados que desviam do seu dever as senhoras honestas, e cavam a ruina domestica das familias, deviam ser mortos a tiro como cães damnados. E ellas então? eu, todos sabem que sou casado. Graças aos céos, topei mulher que me deixa andar com a cara descoberta...
—Aquillo é mentira—disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite.
—Ora diz-m’o a mim!—segredou o outro.—A casa d’elle ninguem sobe com escada de corda, por que a estrada para o coração da mulher é pela trapeira, ha mais de doze annos. Bem sabes que o Raimundo Braga, visinho d’ella...
—Se sei!... Deixa-m’o ouvir.
O commendador saltára do assumpto, por que um dos auditores tinha escarrado, querendo chamar com tão indecente signal a attenção de Leite e d’Abreu.
—Faz o senhor Gervasio o que deve em não consentir que essa mulher perdida lhe entre em casa, nem leve o pequeno—proseguiu o commendador, solicitando com os circumvagantes olhos o apoio do auditorio.—Segure-se, e quanto antes, meu amigo. Estamos aqui todos promptos para tudo que fôr necessario. Não sei se o troca-tintas do seductor tem de seu; mas acho que pouco terá. É d’estes cavalheirotes de aldeia que colhem cem rasas de milho, e vendem quatro arvores quando vem ao Porto. Se é o que eu penso, elle hade querer comer d’ella, e não tarda por ahi a justiça a vir intimal-o para inventario.
—A mim?—atalhou Gervasio—está bem servida a justiça comigo! Já disse que não tenho nada de meu. Devo a cada um de quatro irmãos que ahi estão dez mil crusados de dote afóra os juros. As quintas do Douro estão captivas dos dotes, e mais esta casa. O vinho que por ahi está nos armazens já o vendi. Estou sem nada, logo que pagar o que devo.
—Faz muito bem!—obtemperou radiosamente o commendador—assim é que se ensinam os bigorrilhas e as... e as... adulteras.
—Não sabe o nome da mulher d’elle...—cochichou Abreu á orelha de Leite.