—Não torno a vel-o...

—Has de ver! replicou Nicoláo com vehemencia.

Em 1850, disse o fidalgo de Caminha a sua mulher:

—Faz hoje quatro annos que o teu nome no Porto era um como ferro que fazia golfar a posthêma da maledicencia d’aquelles peitos. Desejo que tu conheças de perto as cavernas onde não poude chegar a lanceta do teu nome. Ha lá dentro pus que não saiu, quando t’o cuspiram ás costas. Prepara-te. Vamos passar dois mezes ao Porto.

—Por quem és, meu filho, não vamos...—accudiu Thomazia.

—Vamos, menina. Pois não queres conhecer as delicias da rehabilitação? Sabes lá tu que prazer ensoberbece a gente, quando nos vemos de perto com os detraidores de outro tempo, e então reconhecemos quanto eramos grandes, á vista dos abjectos inimigos que tivemos?... Ir ao Porto, é coisa que eu te peço de joelhos, se fôr necessario—concluiu Nicoláo acariciando-a.

—Vamos, filho. Se me fizeram chorar, tu me consolarás.

—Quem te ha de fazer chorar? Vaes topar toda a gente á porfia de te fazer rir... E has de rir.


Era um palacio com quatro salões corridos, e doze janellas a jorrarem luz e estrondosas harmonias. As carruagens, entralhando-se á porta do palacio, despejavam commendadores relampadejantes de venéras com os braços arqueados, onde poisavam leveiras como arveolas umas mulheres que volitavam com suas azas de alvissimas gazes. As baronezas nutridas pisavam ponderosamente os tapetes do vasto peristilo do palacio, pedindo aos maridos que lhes desfizessem os refegos da saia, mas com disfarce. Um criado com borlas e galões de ouro tirava pela sineta, assim que ouvia o fremir das sedas no pateo. A meio da escada, descia então o dono da casa, um mancebo de 26 annos, pallido, de olhos negros, e surriso torvo. Inclinava-se deante das houris que iam povoar o seu paraiso, e, recurvando os braços, as conduzia até onde estava uma mulher loura, grave e linda. Então voltando-se ás senhoras, dizia com palaciano entono: