Que ás cinco da manhã parecia ter começado o baile, sendo áquella hora tal o delirio e enthusiasmo, que os pares invadiam as quatro salas, arrebatados na febre do cotillon.

Que a excellentissima Thomazia d’Almeida apenas dançára duas quadrilhas, concedendo a solicitada honra de parceira aos senhores barão da Sola e visconde do Tijolo, que tiveram a fortuna de ouvir sua excellencia descrever as pittorescas orlas dos rios Lima e Minho, onde a virtuosa e abastada senhora possue riquissimas quintas.

«Suas excellencias—concluia o poeta das locaes—tencionam ainda abrir segunda vez as suas esplendidas salas na estação invernosa. Parabens á nata da esbelta cidade da Virgem! que só assim, na esperança de renovados jubilos, poderemos ir mitigando as saudades da rapida noite que hontem nos proporcionou a liberalidade e finissimo gosto d’esta fidalga familia,» etc., etc.

Nicoláo de Almeida, lido o terceiro periodico, entre frouxos de riso, quedou-se triste e disse gravemente:

—Principia agora o nojo. Viste a sociedade, Thomazia? Estás contente com a rehabilitaçao?

Thomazia surriu-se, beijou as mãos do esposo, e respondeu:

—De que me serve a mim isto? Tu é que me fizeste o que sou...

—E receias que estas mulheres façam de ti o que ellas são?

—Não receio... tu me defenderás, meu amor.

—Entendes pois que esta gente não póde reabilitar ninguem?... Vamos então embora. Levemos o nosso filho para as arvores do Minho, que este ar tem veneno que faz mal ás creanças. Está aqui o bafejo acre da podridão interior da illustre canalha, que ha quatro annos te levaria a pontapés das portas dos juizes, se tu viesses pedir teu filho, e o filho fosse de teu marido, e não tivesses pão que lhe dar senão o dos Barros das Cangostas.